Heiner Muller - Só




como um cargueiro sem carga.

Eu: uma vela sem vento.


Uma flor colho,

uma flor colhe-me.


Ontem comecei

a matar-te coração, 

agora amo o que resta de ti

e quando eu estiver morto

o meu pó gritará por ti.


      O poema encena a solidão como condição histórica, não apenas emocional. O eu lírico aparece fragmentado, situado entre ruínas, revelando o esgotamento das promessas revolucionárias. A linguagem é seca, quase brutal, recusando lirismo conciliador. O silêncio, a repetição e a imagem do corpo isolado apontam para um sujeito atravessado pela violência da História, incapaz de síntese, sobrevivendo apenas como resto trágico, moderno.


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