Estive
sempre sentado nesta pedra
escutando,
por assim dizer, o silêncio.
Ou
no lago cair um fiozinho de água.
O
lago é o tanque daquela idade
em
que não tinha o coração
magoado.
(Porque o amor, perdoa dizê-lo,
dói
tanto! Todo o amor. Até o nosso,
tão
feito de privação.) Estou onde
sempre
estive: à beira de ser água.
Envelhecendo
no rumor da bica
por
onde corre apenas o silêncio.
Neste poema, Eugénio de Andrade explora a intimidade entre o
eu lírico e a natureza, usando a água como símbolo de desejo, pureza e
passagem. A linguagem simples e sensorial cria uma atmosfera contemplativa,
onde o corpo e o mundo se tocam. O ritmo calmo, as imagens líquidas e a
contenção verbal reforçam a ideia de proximidade e silêncio, revelando uma
poética do instante, da entrega e da fusão entre ser humano e paisagem,
marcando erotismo discreto e musicalidade intensa.

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