Carlos Martínez Aguirre - Mar de açafrão



A luz adormece sobre o que existe,

insensível à passagem das horas.

Uma gota de azul entre os teus olhos,

um coração que me desenredou os anos.

O tempo confunde-se, não distingue

o trigo de um punhado de laranjas,

e todos nós somos portas na vida,

ávidos por encerrar a primavera.

Mas há campos de nardos nos teus seios,

há mosto nos teus lábios, há espigas

copiadas sobre o ouro das tuas pernas,

há um mar de açafrão, há esmeraldas

presas no teu cabelo, há a bandeira

da vitória nos campos do teu corpo.


      O poeta constrói um poema sensorial e simbólico, onde o mar deixa de ser apenas paisagem e torna-se estado emocional. O açafrão, cor intensa e rara, sugere desejo, memória e sacralidade, tingindo o espaço marítimo de erotismo e melancolia. A linguagem é imagética, fluida, marcada por sinestesias que unem cor, aroma e movimento. O eu lírico oscila entre contemplação e perda, evocando um tempo suspenso. O poema dialoga com o surreal e o lírico, criando uma atmosfera onírica em que o mar funciona como metáfora da consciência e do amor humano profundo e contraditório.


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