A
luz adormece sobre o que existe,
insensível
à passagem das horas.
Uma
gota de azul entre os teus olhos,
um
coração que me desenredou os anos.
O
tempo confunde-se, não distingue
o
trigo de um punhado de laranjas,
e
todos nós somos portas na vida,
ávidos
por encerrar a primavera.
Mas
há campos de nardos nos teus seios,
há
mosto nos teus lábios, há espigas
copiadas
sobre o ouro das tuas pernas,
há
um mar de açafrão, há esmeraldas
presas no teu cabelo, há a bandeira
da
vitória nos campos do teu corpo.
O poeta constrói um poema sensorial e simbólico, onde o mar
deixa de ser apenas paisagem e torna-se estado emocional. O açafrão, cor
intensa e rara, sugere desejo, memória e sacralidade, tingindo o espaço
marítimo de erotismo e melancolia. A linguagem é imagética, fluida, marcada por
sinestesias que unem cor, aroma e movimento. O eu lírico oscila entre
contemplação e perda, evocando um tempo suspenso. O poema dialoga com o surreal
e o lírico, criando uma atmosfera onírica em que o mar funciona como metáfora
da consciência e do amor humano profundo e contraditório.

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