Ser
um mau poeta,
constatá-lo
se for preciso,
e de
manhã levantar muito tarde,
esticar
os versos
como
quem junta pedrinhas
e
depois as joga à corrente,
e à
noite levantar mais tarde ainda,
e
depois as joga à ressaca,
tirar
uma palavra à sorte
e
dar voltas e mais voltas
pela
cidade, junto com ela,
agarradinhos
pela mão,
escolher
uma palavra gigante,
hermafrodita,
por exemplo,
e
passeá-la contigo
pelo
meio da multidão desacostumada,
e
depois levantar, outra vez, muito tarde
pela
manhã, com ela já ausente,
lavar
as mãos e os dentes,
sentar
a escrever e esperar,
esperar,
até cansar de esperar,
limpar
o pó e fazer a cama,
descobrir
debaixo da mesa
centenas
de
objeções mortas
e um
despertador alienado
que
gira e volta a girar, impassível
frente
às tuas horas de sono ou de insónia.
O poema propõe uma atitude de recuo crítico perante a
pretensão humana de controlo. A “má sorte” funciona como metáfora do real
imprevisível, que se volta contra quem tenta dominá-lo. O tom é irónico e
sentencioso, próximo da oralidade, reforçando a ideia de um saber popular que
desafia a racionalidade moderna. O poema questiona a confiança excessiva na
vontade individual e no progresso, sugerindo que o silêncio, a espera e a
renúncia podem ser formas de resistência.

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