Agustín García Calvo - Não tentar a má sorte

 


Ser um mau poeta,

constatá-lo se for preciso,

e de manhã levantar muito tarde,

esticar os versos

como quem junta pedrinhas

e depois as joga à corrente,

e à noite levantar mais tarde ainda,

e depois as joga à ressaca,

tirar uma palavra à sorte

e dar voltas e mais voltas

pela cidade, junto com ela,

agarradinhos pela mão,

escolher uma palavra gigante,

hermafrodita, por exemplo,

e passeá-la contigo

pelo meio da multidão desacostumada,

e depois levantar, outra vez, muito tarde

pela manhã, com ela já ausente,

lavar as mãos e os dentes,

sentar a escrever e esperar,

esperar, até cansar de esperar,

limpar o pó e fazer a cama,

descobrir debaixo da mesa

centenas

de objeções mortas

e um despertador alienado

que gira e volta a girar, impassível

frente às tuas horas de sono ou de insónia.


      O poema propõe uma atitude de recuo crítico perante a pretensão humana de controlo. A “má sorte” funciona como metáfora do real imprevisível, que se volta contra quem tenta dominá-lo. O tom é irónico e sentencioso, próximo da oralidade, reforçando a ideia de um saber popular que desafia a racionalidade moderna. O poema questiona a confiança excessiva na vontade individual e no progresso, sugerindo que o silêncio, a espera e a renúncia podem ser formas de resistência.


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