Renata Correia Botelho - A árvore das raízes

 



a minha infância tem uma árvore

assombrosa. é uma bela história de amor

entre as nossas mãos pequeninas

e aqueles seus braços enormes, bravos e

loucos como o riso das mães,

que faziam abrandar o medo e a tarde.


oito, nove, dez: virávamo-nos à procura dos outros

pelo labirinto de grutas cavado nas raízes,

ao abrigo do vento e da solidão que não tardaria

a descobrir o nosso esconderijo.


ao parar, há dias, na Deslocação do Labirinto,

imaginei que talvez Vieira da Silva

tivesse sonhado a minha árvore.

ou vice-versa. dois seres mágicos do mesmo elemento

engendrando-se um ao outro nas raízes do mundo:


azuis e verdes com riscos ferozes

onde a vista se afunda para depois

nos libertar. assim é, entre o céu da memória

e a erva húmida destes dias,

a árvore da minha infância.


    in, Small Song

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