Dinis Moura - Funeral

 


O meu tio levou um requintado fato preto

feito por medida, tecido italiano, caríssimo.

O meu irmão, que detesta gravatas pretas,

colocou uma, porém, talvez para dissimulá-la,

vestiu uma camisa preta.

As minhas primas, umas de calças, outras de vestido,

outras de saia, foram todas vestidas de preto.

A minha tia, sempre exagerada,

levou uma minissaia quase curtíssima e uma camisola

exageradamente decotada, tudo da mesma cor, tudo preto.

A minha avó levou um vestido e um xaile da cor

que vem ostentando ininterruptamente há dez anos:

a cor que a morte do meu avô sepultou em todas

as suas roupas: a cor do luto – o preto.

O médico foi de preto,

o advogado também.

Foram alguns amigos, alguns conhecidos,

todos eles vestidos de preto.

De preto foi também a única pessoa

que não conheci.


Só eu chorei.


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