Darío Jaramillo Agudelo

 


Recordo apenas que me esqueceu o som das mais amadas vozes

e perdi para sempre o cheiro das frutas da infância,

o sabor exacto do pêssego

o bater de asas do vento por entre os pinheiros,

o entusiasmo de achar uma noz caída da nogueira.

Sortilégios de outro tempo, agora apenas litania descolorida,

apelo vão que não me traz o assombro

de ver um pássaro dentro do quarto,

como às vezes de madrugada em criança.

Como recuperar certas carícias e os abraços essenciais?

Como reviver a mais certa penumbra, iluminada pela luz dos já antigos Beatles,

como fazer que chova a mesma chuva que via cair

nos meus treze anos?

Como voltar ao êxtase do sol, à luz ébria dos sete anos,

ao sabor maduro das amoras,

a todo esse território desconhecido da morte,

à palpitante luz da pureza,

a tudo isso que eu sou, mas que já não é meu?


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