Silvia Ugidos

 


Tal como qualquer cidade

também nós escondemos

turvos itinerários, edifícios arruinados,

escuras vielas de rancor ou desejo,

arrabaldes de medo ou parques para o amor,

cantos em penumbra onde ocultar segredos,

praças que nunca visitamos

e aborrecidos museus onde expor lembranças

que não interessam a ninguém.

A nós

também nos habitam cidadãos terríveis:

funcionários do tédio,

mensageiros de moto levando para muito longe

o pequeno embrulho - primoroso e com laço -

dos remorsos.

Viajantes que passam por nós

com as suas malas a caminho de outros corpos

e sobretudo

transeuntes alheios à nossa própria vontade,

incivis e teimosos;

têm nomes ridículos

tal como os sentimentos amor, rancor ou medo

e especulam - como vulgares comerciantes -

com o preço

por metro quadrado do nosso coração.


      O, já antigo, traçado urbanístico


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