Margaret Atwood

 


Algumas pessoas vendem o seu sangue. Tu vendes o teu coração.

Era isso ou a alma.

A parte difícil é tirar a maldita coisa para fora.

Uma espécie de torção. Como abrir uma ostra,

a tua espinha, um pulso,

e depois, upa! Está na tua boca.

Viras-te parcialmente do avesso

como uma anémona do mar a cuspir um seixo.

Há um "plop" quebrado, o som

de vísceras de peixe a cair num balde.

E ali está, um enorme coágulo vermelho escuro

do passado ainda-vivo, a cintilar inteiro no prato.

Vai passando de mão em mão. É escorregadio. É deixado cair.

Mas também degustado. Muito grosseiro, diz um. Muito salgado.

Muito amargo, diz outro, fazendo uma cara.

Cada um é um gourmet instantâneo,

e tu ficas a ouvir isto tudo

a um canto, como um empregado de mesa recém-contratado,

a tua mão tímida e habilidosa na ferida escondida

no fundo da camisa e peito,

timidamente, sem coração.


      A qualidade de vida depende da interatividade de 3 órgãos: o coração, o cérebro e a mão. Se perdermos o coração desequilibramos a vida. 

 

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