Leonor Castro Nunes

 

  

tínhamos os olhos muito abertos.

queimávamos madrugadas de fio a pavio

e as aves desmanteladas que te dava para consertares

conheciam sempre finais felizes.

 

foram noites gigantes

a olhar pelo buraco da agulha

e a imaginar que do outro lado chegavam as mãos

e as bocas e os peitos.

 

ocupámos a casa inteira

e suturámos lentamente o coração.

 

agora estou dentro do sono.

um barco encalhado assinala esta tragédia

e já não sei como convocar os ventos e as marés.

as noites passam lentas e perseguem-me

como animais ainda por nomear.


      Muda o acessório mas o essencial tem de permanecer.


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