José Luís - um soneto irónico

 

  

o que eu gosto mesmo é das manhãs em que tudo

está no preciso local onde deveria estar: a folhagem

a balouçar no ramo, o pau de giz ao lado do quadro,

o silvo da chaleira, a gaivota aos gritos sobre a praia,

 

a nuvem indecisa, o mecânico a manobrar o torno,

o selo no envelope, a recém-nascida agarrada à vida,

a relva agradecida pela chuva, o relógio sem pilha há

pelo menos um mês, o autocarro a chegar à paragem,

 

o livro abandonado no sofá, o carpinteiro a escolher

o serrote, a borboleta ali pousada, a primeira nota da

ária das variações goldberg, a respiração condensada

 

na vidraça, alguém na cozinha a preparar uma sopa

de legumes, a vontade de compor um soneto irónico

e um poeta desesperado perante a página em branco.


      O equilíbrio gera serenidade. Tudo é como é, as coisas são como são. O desequilíbrio gera evolução.


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