"O fio que a mão de
Ariadne deixou na mão de Teseu (na outra estava a espada) para que este se
aventurasse no labirinto e descobrisse o centro, o homem com cabeça de touro
ou, como pretende Dante, o touro com cabeça de homem, e o matasse e pudesse, já
executada a proeza, decifrar as redes de pedra e voltar para ela, para o seu
amor.
As coisas aconteceram
assim. Teseu não podia saber que do outro lado do labirinto estava o outro
labirinto, o do tempo, e que num lugar já fixado estava Medeia.
O fio perdeu-se, o
labirinto perdeu-se também. Agora nem sequer sabemos se nos rodeia um
labirinto, um secreto cosmos ou um caos ocasional. O nosso mais belo dever é
imaginar que há um labirinto e um fio. Nunca daremos com o fio; talvez o
encontremos e o percamos num acto de fé, num ritmo, no sono, nas palavras que
se chamam filosofia ou na mera e simples felicidade."
Ao que o homem não conhece chama mistério e é com os sentidos, com a linguagem, com a ciência que desbrava o que desconhece. Apenas precisa de ir e voltar. No meio da nossa incerteza percebemos neste mito de Creta que Teseu não é o herói real. Quem possibilita o êxito é Ariadne. Ela tece um fio de lã, e esse fio tão frágil é o guia por entre os corredores do labirinto. Aqui, como uma metáfora para nosso tempo: a ciência é nosso fio de Ariadne.

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