Rafael Camarasa - Verde

 

      


O homem do povo descreveu as folhas como sendo verde-água.

Ao evocá-las no seu romance, o escritor as definiu verde-esmeralda.

Quando se fez o filme baseado naquela história, o realizador pediu

aos actores que apareciam debaixo da árvore

para que vestissem roupas a condizer com o verde-hawai das folhas.

Os trabalhadores que retiravam os cenários, mal-humorados

e sonolentos, viam-nas verde-escuro.

Já ninguém se lembra dela, mas a árvore permanece no seu sítio.

Viu engrossar a sua cortiça e cresceu alguns centímetros.

Presa sem mérito ao solo recebe agradecida a chuva, balança

com o temporal e dá sombra a quem se aproxima.

Não sabe que inspirou um livro ou que apareceu num filme.

Se fosse um homem diríamos que é dessa espécie de sábios

que ignoram os adjectivos que qualificam cada verde que vêem.


    Os sábios ignoram os adjectivos? Eles são tão importantes para descrever a identidade. Contudo, a procura descritiva não deve ser tão exaustiva que mate a contemplação, o mistério e a beleza. 


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