Estou sentada na cozinha, enquanto a massa ferve.
Amo as coisas concretas
descobrir os seus nomes ao pequeno-almoço:
despertador, chuva na calçada, supermercado,
beijos na siesta,
um copo de vinho, amigos,
as pequenas mãos do meu filho,
pessoas na praça,
tu.
Elas produzem as mais doces e lânguidas cócegas,
como um banquete após o jejum.
Parece-me impossível afastar-me de tais coisas:
colam-se à minha caneta e parece que não consigo
sacudi-las.
No entanto,
as coisas concretas não permitem atrasos,
e a massa já está pronta.
Assim é a vida.
Quando o semear do poema começava a germinar,
eis que o mundano vem intrometer-se.
E lá tenho eu que me levantar da mesa,
enquanto a sombra de um bilioso humor assenta.
Não perca tempo, as coisas são apenas coisas, a poesia é que as transforma e a fé as sagra.

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