Miren Agur Meabe - Coisas concretas

 


Estou sentada na cozinha, enquanto a massa ferve.

 

Amo as coisas concretas

descobrir os seus nomes ao pequeno-almoço:

despertador, chuva na calçada, supermercado,

beijos na siesta,

um copo de vinho, amigos,

as pequenas mãos do meu filho,

pessoas na praça,

tu.

 

Elas produzem as mais doces e lânguidas cócegas,

como um banquete após o jejum.

Parece-me impossível afastar-me de tais coisas:

colam-se à minha caneta e parece que não consigo sacudi-las.

 

No entanto,

as coisas concretas não permitem atrasos,

e a massa já está pronta.

Assim é a vida.

Quando o semear do poema começava a germinar,

eis que o mundano vem intrometer-se.

E lá tenho eu que me levantar da mesa,

enquanto a sombra de um bilioso humor assenta.


      Não perca tempo, as coisas são apenas coisas, a poesia é que as transforma e a fé as sagra.

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