Ivan Laučik - Desde a manhã

 


Nada importa, dizem-te pela manhã:

E tu (vês-te obrigado) duvidas destas palavras todo o dia.

 

Resiste, entretém os peixes,

canta-lhes em voz alta sobre a ponte.

Os momentos de alegria quase te envergonham:

as distâncias convenientes, relações de altura e profundidade,

os invernos curtos, vento em conta para os moinhos -

e um tempo longo coberto de ornamentos de ferro!

(Os livros de Lógica estão gastos

pelas mãos e pelo suor!)

 

Alguém que ouve mal embriaga-se de palavras:

o futuro pertence apenas aos helicópteros silenciosos,

capazes de aterrar na palma da mão.

(Haverá palma da mão?) E continua em sonhos

a separar-se o comestível do que não presta.

 

Sim, chegam-nos plantas cheias de entusiasmo.

Mas não é por isso que a folha artificial é menos verde.

 

Assim os incrédulos valorizam a fé.

Os infalíveis esperam ser salvos pelos nossos erros.

Os vivos sabem

que tudo importa

desde a manhã.


      Ivan Laučik, poeta eslovaco, nasceu em Liptov, em 1944. Foi professor de literatura na sua terra natal. A publicação da sua obra poética esteve proibida durante os dezoito anos de regime comunista checoslovaco. Com a fundação do Grupo literário Solitary Runners, em 1964, a sua poesia foi finalmente divulgada. 

      O poema revela bem o contexto em que o poeta está inserido. "Nada importa" porque como dizia Reiner Kunze nenhuma árvore podia ser maior do que a outra, nenhum carro podia ser melhor que outro e pior nenhuma ideia podia ser maior. 

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