Meu pai falava do odor das
alfavacas
e eu corria ao dicionário
(«Planta labiada, semelhante
ao manjericão…»), logo
decepcionado
Imaginava uma vaca primordial
depositária de bíblicos
segredos
capaz de mudar o curso das
coisas
de ser fundamental, talvez,
na minha vida
mas nada disso: havia-as de
caboclo, de cobra, dos montes,
do campo, de cheiro
(certamente as do meu pai)
e nenhuma referência à
cornuda que apascentava
a minha imaginação
Aprendi assim a desconfiar
das palavras
e da realidade
a ver como ambas nos enganam
sem qualquer piedade.
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