Porque as melhores
pessoas são tristes. A minha mãe é pálida, muito pálida, e mesmo quando se ri
treme-lhe uma tristeza no riso como gotas de água num ramo ao sol. Nunca vemos
Jesus dar cotoveladas aos seus discípulos e torcerem-se a rir. Judas, esse, queria
armar-se em esperto e afastava-se deles para se rir sozinho. Nunca se viu
ninguém pensar numa coisa difícil, nos rebentos de uma árvore, no sol, como é
que ele sobe e desce na água do céu, e desatar a rir-se. Aliás, só há
felicidade nos tristes. Os homens dizem: «Uma vida de cão.» Julgam que os
animais são humilhados e infelizes. Mas eu tinha observado com atenção os
animais e sabia que os homens se enganavam porque uma formiga nunca pára para
suspirar, dizendo que a vida não vale a pena ser vivida, e não há um burro que
diga: «Como me envergonho de ser burro.» E no que respeita às plantas, tanto
orgulho têm por ser o que são, que nunca dizem nada a ninguém. Os animais só
são infelizes quando magoam uma pata. Eu quando me magoo não me sinto infeliz.
Mesmo quando era pequeno e caía, desatava a rir-me e gritava: «Dei um tombo!»,
ou chamava alguém para anunciar: «Tenho sangue a correr!» Nós, nós somos
infelizes por não andarmos nada contentes com o que somos, e também por não
sabermos o que gostaríamos de ser.
Luc Dietrich nasceu em
1913, em Dijon, e morreu em 1944. "A Felicidade dos Tristes", com que
esteve à beira de ganhar o Prémio Goncourt em 1935, é a sua obra mais
conhecida. Neste trecho, à boa maneira europeia, ele faz a apologia da tristeza.
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