O
meu pai enrola um cigarro. A minha mãe faz malha.
Silêncio
entre eles, se exceptuarmos o clic clac
das
agulhas.
Outra
cerveja para ele. Porquê, interroga-se ela,
sem
nunca formular a pergunta. Mesmo assim ele ouve,
atento
a tudo o que ela não diz.
É
então que ele lhe chama Mulher. Palavra que ela detesta.
Mulher,
resmunga outra vez. Está calada, Mulher.
E
ela a tricotar.
No
canto estou eu, a ler. Embora com dez anos apenas
chamam-me
o Professor. Desconhecem ambos
quanto
eu meu me apercebo da sua infelicidade
ao
erguer os olhos do livro. Tento vê-los
como
devem ter sido um dia, mortos por se agarrarem,
Romeu e Julieta num sítio chamado Verona.
Tradução de FJCC
Original:
My father’s rolling a cigarette. My
mother’s knitting.
There’s silence between them, except
for the clickety-clack
of her needles.
He pours himself another beer. She
wonders why
without ever asking the question. He
hears it even so
since he’s alert to all the things
she doesn’t say.
It’s now he calls her Woman. She
loathes the word.
Woman, he snarls again. Be quiet,
Woman.
She goes on knitting.
I’m in the corner, reading. Although
I’m only ten
they’ve named me the Professor.
Neither of them knows
how much I see of their unhappiness
as I look up from my book. I try to
picture them
as they must have been once,
desperate to clutch each other
like Romeo and Juliet in a place
called Verona.
O poema retrata a deterioração de uma relação conjugal
através de uma cena doméstica marcada pelo silêncio, pela incompreensão e pela
infelicidade. O pai e a mãe vivem lado a lado, mas emocionalmente afastados. A
palavra «Mulher», repetida pelo marido, traduz uma relação de domínio e
desconsideração. A criança, apesar dos seus dez anos, revela uma surpreendente
consciência do sofrimento dos pais. A referência final a Romeu e Julieta
contrasta o amor idealizado com a realidade desencantada do casal, evocando a
paixão que talvez tenha existido outrora.

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