Paul Bailey - Paixão / Passion

 


O meu pai enrola um cigarro. A minha mãe faz malha.

Silêncio entre eles, se exceptuarmos o clic clac

das agulhas.


Outra cerveja para ele. Porquê, interroga-se ela,

sem nunca formular a pergunta. Mesmo assim ele ouve,

atento a tudo o que ela não diz.


É então que ele lhe chama Mulher. Palavra que ela detesta.

Mulher, resmunga outra vez. Está calada, Mulher.

E ela a tricotar.


No canto estou eu, a ler. Embora com dez anos apenas

chamam-me o Professor. Desconhecem ambos

quanto eu meu me apercebo da sua infelicidade


ao erguer os olhos do livro. Tento vê-los

como devem ter sido um dia, mortos por se agarrarem,

Romeu e Julieta num sítio chamado Verona.


  Tradução de FJCC


  Original:


My father’s rolling a cigarette. My mother’s knitting.

There’s silence between them, except for the clickety-clack

of her needles.


He pours himself another beer. She wonders why

without ever asking the question. He hears it even so

since he’s alert to all the things she doesn’t say.


It’s now he calls her Woman. She loathes the word.

Woman, he snarls again. Be quiet, Woman.

She goes on knitting.


I’m in the corner, reading. Although I’m only ten

they’ve named me the Professor. Neither of them knows

how much I see of their unhappiness


as I look up from my book. I try to picture them

as they must have been once, desperate to clutch each other

like Romeo and Juliet in a place called Verona.


      O poema retrata a deterioração de uma relação conjugal através de uma cena doméstica marcada pelo silêncio, pela incompreensão e pela infelicidade. O pai e a mãe vivem lado a lado, mas emocionalmente afastados. A palavra «Mulher», repetida pelo marido, traduz uma relação de domínio e desconsideração. A criança, apesar dos seus dez anos, revela uma surpreendente consciência do sofrimento dos pais. A referência final a Romeu e Julieta contrasta o amor idealizado com a realidade desencantada do casal, evocando a paixão que talvez tenha existido outrora.


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