Néstor Barron - A primeira vez que me acontece / La primera vez que me pasa

 


Não é que a casa me inquiete

ou a tua cama não me inspire

ou eu não estivesse a arder

quando entrámos no quarto a rodar,

bailando a valsa dos possessos.

É só que

vi que outro esqueceu uma muleta

ao pé da tua mesa de cabeceira,

e distraí-me irremediavelmente

com a ideia de alguém a sair do quarto

aos saltinhos com uma perna só, com

esse espasmo tragicómico

que há na resignação.


  Tradução de A.M.


  Original:


No es que me inquiete tu casa,

no es que tu cama no me inspire,

no es que no ardiera

cuando entramos a tu cuarto rodando,

bailando el vals de los posesos.

Es sólo que

vi que otro olvidó una muleta

junto a tu mesa de luz,

y me distraje irremediablemente

con la idea de alguien saliendo del cuarto

a los saltitos sobre una sola pierna, con ese

espasmo tragicómico

que hay en la resignación.


      No poema, Néstor Barron transforma um encontro amoroso numa reflexão inesperada sobre a presença de um terceiro. O sujeito poético esclarece que não é a casa, a cama ou a intimidade que o perturbam, mas a descoberta de uma muleta esquecida junto à mesa de cabeceira. Esse objecto desencadeia uma imagem simultaneamente cómica e melancólica: alguém abandonando o quarto aos saltinhos. O humor subtil esconde uma inquietação perante a fragilidade humana, a resignação e os vestígios de intimidades anteriores. A solidão.


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