O
que será que me dá
Que
me bole por dentro, será que me dá
Que
brota à flor da pele, será que me dá
E
que me sobe às faces e me faz corar
E
que me salta aos olhos a me atraiçoar
E
que me aperta o peito e me faz confessar
O
que não tem mais jeito de dissimular
E
que nem é direito ninguém recusar
E
que me faz mendigo, me faz suplicar
O
que não tem medida, nem nunca terá
O
que não tem remédio, nem nunca terá
O
que não tem receita.
O
que será que será
Que
dá dentro da gente e que não devia
Que
desacata a gente, que é revelia
Que
é feito uma aguardente que não sacia
Que
é feito estar doente de uma folia
Que
nem dez mandamentos vão conciliar
Nem
todos os unguentos vão aliviar
Nem
todos os quebrantos, toda alquimia
E
nem todos os santos, será que será
O
que não tem descanso, nem nunca terá
O
que não tem cansaço, nem nunca terá
O
que não tem limite.
O
que será que me dá
Que
me queima por dentro, será que me dá
Que
me perturba o sono, será que me dá
Que
todos os tremores me vêm agitar
Que
todos os ardores me vêm atiçar
Que
todos os suores me vêm encharcar
Que
todos os meus nervos estão a rogar
Que
todos os meus órgãos estão a clamar
E
uma aflição medonha me faz implorar
O
que não tem vergonha, nem nunca terá
O
que não tem governo, nem nunca terá
O que não tem juízo.
"O Que Será?" é uma das composições mais
emblemáticas de Chico Buarque, criada em 1976 para a banda sonora do filme Dona
Flor e Seus Dois Maridos. Marcada pela sua forte carga metafórica e poesia
intensa, a canção tornou-se um hino de resistência implícita contra a ditadura
militar brasileira e uma profunda reflexão sobre o desejo, a aflição e o
mistério da natureza humana.
Sem comentários:
Enviar um comentário