Não é fácil ser poeta a tempo
inteiro.
Eu, por exemplo, nem cinco minutos
por dia,
pois levanto-me tarde e primeiro há
que lavar
os dentes, suportar os incisivos
à face do espelho, pentear a cabeça e
depois,
a poeira que caminha, o massacre dos
culpados,
assistir de olhos frios à refrega dos
centauros.
Chegar por fim a casa para a prosa
de uma carne à jardineira, o estrondo
das notícias, a louça por quebrar.
Concluindo,
só por volta das duas da manhã começo
a despir
o fato de macaco, a deixar as imagens
correr,
simulacro do desastre.
Mas entretanto já é hora de dormir.
Mais um dia de estrume para roseira
nenhuma.
O poema explora, com ironia e contenção, a relação entre
poesia e o "terrorismo" do dia-a-dia. O poema questiona a utilidade da escrita
poética, confrontando o ideal literário com a experiência quotidiana e as suas
limitações. O tom desencantado, mas subtilmente humorístico, transforma a
reflexão numa espécie de autocrítica.
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