José Miguel Silva - Parte poética

 


Não é fácil ser poeta a tempo inteiro.

Eu, por exemplo, nem cinco minutos por dia,

pois levanto-me tarde e primeiro há que lavar

os dentes, suportar os incisivos

à face do espelho, pentear a cabeça e depois,

a poeira que caminha, o massacre dos culpados,

assistir de olhos frios à refrega dos centauros.

Chegar por fim a casa para a prosa

de uma carne à jardineira, o estrondo

das notícias, a louça por quebrar. Concluindo,

só por volta das duas da manhã começo a despir

o fato de macaco, a deixar as imagens correr,

simulacro do desastre.

Mas entretanto já é hora de dormir.

Mais um dia de estrume para roseira nenhuma.


      O poema explora, com ironia e contenção, a relação entre poesia e o "terrorismo" do dia-a-dia. O poema questiona a utilidade da escrita poética, confrontando o ideal literário com a experiência quotidiana e as suas limitações. O tom desencantado, mas subtilmente humorístico, transforma a reflexão numa espécie de autocrítica.


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