Eugénio de Andrade - Ver Claro




Toda a poesia é luminosa, até

a mais obscura.

O leitor é que tem às vezes,

em lugar de sol, nevoeiro dentro de si.

E o nevoeiro nunca deixa ver claro.

Se regressar

outra vez e outra vez

e outra vez

a essas sílabas acesas

ficará cego de tanta claridade.

Abençoado seja se lá chegar.


    in, Os Sulcos da Sede, 2001


      O poema valoriza a palavra poética pela luz e valoriza quem a procuraa. A expressão do título sugere uma procura de transparência interior, afastando a confusão e as ilusões (nevoeiro). Os versos transmitem serenidade, mas também uma exigência ética: ver claramente implica reconhecer a beleza, a verdade e a fragilidade da existência.


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