Juan Bello Sánchez - Uma escuridão / Una oscuridad

 


Cai sobre nós

como faria um homem faminto

sobre um prato de sopa quente,

uma noite de inverno.

Tudo se move para onde tem de ser,

mudança nenhuma

é demasiado profunda.


Devíamos prestar mais atenção,

ser mais cuidadosos,

o tempo dobra-se sobre si mesmo

e o que aconteceu,

algo de que julgávamos

que estávamos livres,

podia estar à beira de acontecer de novo,

pela primeira vez.


  Tradução de A.M.


  Original:


Cae sobre nosotros

como lo haría un hombre hambriento

sobre un plato de sopa caliente,

una noche de invierno.

Todo se mueve hacia donde tiene que moverse,

ningún cambio

es un cambio demasiado profundo.


Deberíamos prestar más atención,

deberíamos ser más cuidadosos,

el tiempo se pliega sobre sí mismo

y lo que ocurrió,

algo de lo que creíamos

que nos habíamos librado,

podría estar a punto de ocurrir de nuevo,

por primera vez.


      O poema apresenta a escuridão como metáfora de um recomeço não esperado na vida humana. A noite (velhice?) surge de forma quase física, avançando sobre «nós» com força inevitável. O movimento das coisas parece obedecer a uma ordem prévia, enquanto o tempo se dobra. O poema transmite, assim, uma inquietação discreta: aquilo que julgávamos ultrapassado pode regressar inesperadamente. A linguagem simples e quotidiana reforça o carácter filosófico da reflexão sobre memória, tempo e destino.


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