Nuria Mezquita - Eu queria ser como Marilyn



Eu queria ser como Marilyn,

mas algo correu mal.


O meu cabelo, os músculos, a boca, as mamas...

Algo correu mal.


Eu queria ser como Marilyn,

brincar com os meus amantes

trocá-los

parti-los

enganá-los

tirar a perna a um

a outro o braço

comê-los devagar,

como cerejas cobertas de caramelo.

Morder-lhes o coração.


Eu queria passear sem cuecas

cantar happy birthday ao presidente

dar alegria ao meu daddy

foder com o meu tiger

encher com diamantes a mesa de cabeceira

suar

sonhar

virar-me

em lençóis de linho pisado

por três ou quatro gigantes.


Eu queria ser como Marilyn.

Tentar a vida dos magnates

foder Franky

Jonny

e Ronny.

Pôr os United em xeque

cantar canções fracassadas

no piano de Truman Capote.

Beber até cair

cheirar umas linhas de heroína

apalpar os colhões de uma equipa inteira de futebol

chupar pilas em troca

de rosas

pastilhas

100 frases.


Desenhar o inferno só com uma linha,

com a voz mais porca e mais doce.


Sim, eu queria ser como Marilyn

E como tu e tu

Como a porteira

Até a minha mãe.


Mas definitivamente,

é claro,

algo

correu

mal.


  Tradução de A.M.


      O poema parte da figura icónica de Marilyn Monroe para explorar o desejo de ser outra pessoa e a distância entre aparência e identidade. A admiração pela atriz transforma-se numa reflexão sobre beleza, fama e reconhecimento, mas também sobre a fragilidade escondida por detrás do mito. O tom é simultaneamente confessional e irónico, revelando uma consciência crítica dos modelos femininos impostos pela sociedade. 


Sem comentários:

Arquivo do blogue