Há duas semanas que ele anda a observar a mesma rapariga,
Alguém que costuma ver na praça. Na casa dos vinte, talvez,
tomando café à tarde, uma pequena cabeça escura
inclinada sobre uma revista.
Fica a observá-la do outro lado da praça, fingindo
comprar alguma coisa, cigarros, um ramo de flores, talvez.
Por ela ignorar o seu próprio poder,
este é agora imenso, fundido nas necessidades da imaginação
dele.
Ele é seu prisioneiro. Ela diz as palavras que ele lhe
atribui
numa voz por si imaginada, num tom baixo e brando,
uma voz do Sul, tal como os cabelos negros serão certamente
do Sul.
Em breve, ela irá reconhecê-lo, e depois começará a
esperá-lo.
E talvez a partir daí traga todos os dias os cabelos acabados
de lavar
e olhe abertamente em redor na praça antes de baixar outra
vez o olhar.
E depois disso tornar-se-ão amantes.
Mas ele espera que isso não aconteça logo,
pois seja que poder for que ela agora exerça sobre o seu
corpo,
sobre as suas
emoções,
é um poder que ela deixará de possuir assim que se
comprometer –
recolher-se-á naquele mundo privado do sentimento
a que as mulheres acedem quando amam. E, aí vivendo, será
como
uma pessoa que não projeta sombra, que não está presente no
mundo;
nesse sentido, achando-a ele de pouca serventia,
pouco importa se ela vive ou morre.
Tradução de Frederico Pedreira
Original:
For two weeks he’s been
watching the same girl,
someone he sees in the
plaza. In her twenties maybe,
drinking coffee in the
afternoon, the little dark head
bent over a magazine.
He watches from across
the square, pretending
to be buying something, cigarettes, maybe a bouquet of flowers.
Because she doesn’t know it exists,
her power is very great
now, fused to the needs of his imagination.
He is her prisoner. She
says the words he gives her
in a voice he imagines,
low-pitched and soft,
a voice from the south
as the dark hair must be from the south.
Soon she will recognize
him, then begin to expect him.
And perhaps then every
day her hair will be freshly washed,
she will gaze outward
across the plaza before looking down.
And after that they
will become lovers.
But he hopes this will
not happen immediately
since whatever power
she exerts now over his body, over his emotions,
she will have no power
once she commits herself —
she will withdraw into
that private world of feeling
women enter when they
love. And living there, she will become
like a person who casts
no shadow, who is not present in the world;
in that sense, so
little use to him
it hardly matters
whether she lives or dies.
O poema explora o desejo, a fantasia e a distância entre imaginar alguém e realmente conhecê-lo. Um homem observa secretamente uma jovem e constrói, a partir dela, uma relação inteiramente imaginária. A sua fascinação depende precisamente da ausência de reciprocidade: enquanto ela permanece desconhecida, conserva poder sobre ele. Quando imagina uma possível relação, teme perder esse encantamento. O poema revela, assim, a natureza possessiva da fantasia amorosa e a fragilidade das expectativas humanas, através de uma linguagem simples, fria e profundamente inquietante.
O still é do filme Malena, 2000.

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