A.M.Pires Cabral - A umas flores amarelas

 


Encontro-as por acaso numa ilharga

sombria do caminho. São amarelas.

Reluzem como um sol que arda na noite.


Estas flores tão densamente de ouro,

eriçadas de estames que parecem

a pelagem dum gato posto à prova,


a mim, que me comovo com igrejas singelas

de preferência a grandes catedrais,


mostram um esplendor totalmente inesperado

neste chão de pedra que ninguém diria

poder florir assim.


Ó flores cujo nome desconheço,

prolongai esse fulgor humilde em cada dia

de que ainda disponho para ver as flores,


antes de as flores virem ter comigo.


      O poema parte da contemplação de flores para refletir sobre a passagem do tempo, a fragilidade e a beleza efémera da existência. O amarelo, associado à luz, ao amadurecimento e também ao declínio, adquire um valor simbólico. O sujeito poético observa a natureza com atenção e transforma uma realidade simples numa meditação sobre a condição humana.


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