Paul Celan - Fala também tu / Sprich auch du

 


Fala também tu,

fala em último lugar,

diz a tua sentença.


Fala –

Mas não separes o Não do Sim.

Dá à tua sentença igualmente o sentido:

dá-lhe a sombra.


Dá-lhe sombra bastante,

dá-lhe tanta

quanto exista à tua volta repartida entre

a meia-noite e o meio-dia e a meia-noite.


Olha em redor:

como tudo revive à tua volta! –

Pela morte! Revive!

Fala verdade quem diz sombra.


Mas agora reduz o lugar onde te encontras:

Para onde agora, oh despido de sombra, para onde?

Sobe. Tacteia no ar.

Torna-te cada vez mais delgado, irreconhecível, subtil!

Mais subtil: um fio,

por onde a estrela quer descer:

para em baixo nadar, em baixo,

onde pode ver-se cintilar: na ondulação

das palavras errantes.


in, Sete rosas mais tarde

Tradução de João Barrento e Y. K. Centeno


  Original:


Sprich auch du,

sprich als letzter,

sag deinen Spruch.


Sprich –

Doch scheide das Nein nicht vom Ja.

Gib deinem Spruch auch den Sinn:

gib ihm den Schatten.


Gib ihm Schatten genug,

gib ihm so viel,

als du um dich verteilt weißt zwischen

Mittnacht und Mittag und Mittnacht.


Blicke umher:

sieh, wie’s lebendig wird rings –

Beim Tode! Lebendig!

Wahr spricht, wer Schatten spricht.


Nun aber schrumpft der Ort, wo du stehst:

Wohin jetzt, Schattenentblößter, wohin?

Steige. Taste empor.

Dünner wirst du, unkenntlicher, feiner!

Feiner: ein Faden,

an dem er herab will, der Stern:

um unten zu schwimmen, unten,

wo er sich schimmern sieht: in der Dünung

wandernder Worte.


      O poema é uma meditação sobre a palavra depois da catástrofe. O poeta convida a falar, mas sem ilusões, procurando uma linguagem depurada, fiel ao silêncio e à verdade. A voz poética recusa discursos fáceis e valoriza a autenticidade, mesmo quando as palavras parecem insuficientes. A tensão entre dizer e calar traduz o trauma histórico e existencial, transformando a poesia num gesto de resistência, memória e responsabilidade perante o outro.


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