Aurora Luque - As pontes inflamáveis / Los puentes inflamables

 


Na hora de atravessar

essa ponte do meio do caminho

quando vais escolhendo malgré toi

os chamados prazeres simples da vida

- sabendo que no fundo são eles que te escolhem a ti,

somando-te a seu séquito caduco -

então simplificas o cálculo do mundo,

até da beleza

que presumias tão incalculável.

E descobres que tudo se reduz

a viajar do muito para o muito menos,

do povoado para o vento do deserto,

do excesso para o escasso,

a declinar palavras consabidas

ou a declinar sem mais, intransitivamente,

a trocar os magníficos plurais

por um cerco singular

esboçando alguma resistência...


As pontes inflamáveis

do meio do caminho da vida.


  Tradução de A.M.


  Original:


A punto de cruzar         

ese puente del medio del camino          

cuando vas eligiendo malgré toi

los llamados placeres sencillos de la vida

-sabiendo que, en el fondo, te eligen a ti ellos, 

te suman a su séquito caduco- 

simplificas el cálculo del mundo: hasta de la belleza      

que presumías tan incalculable.             

Y descubres que todo se reduce             

a viajar de lo mucho a lo muy menos,   

de lo poblado al viento del desierto,     

del exceso a lo escaso,

a declinar palabras consabidas 

o a declinar sin más, intransitivamente,

a cambiar los magníficos plurales           

por un acorralado singular        

enarbolando alguna resistencia...          


Los puentes inflamables

del medio del camino de la vida.


      O poema reflete sobre a meia-idade como um momento de transição inevitável, em que os ideais grandiosos cedem lugar à aceitação dos limites da existência. A imagem da ponte simboliza a passagem para uma consciência mais sóbria, onde a abundância se transforma em escassez e o plural se reduz ao singular. Contudo, o poema não é resignado: afirma uma resistência discreta perante o tempo, preservando a beleza e a dignidade da experiência humana.


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