Rosabetty Muñoz - O rio da noite / El rio de la noche

 


O rio da noite é outro,

atravessado e só na cidade que dorme.

Gosta que eu lhe leve poemas e laranjas,

que não o tema e que o tema

arrulhando com alemães bonitos

que olhavam o céu para fazer casa

e homens tristes perdidos por terra adentro.

"A vida deve-lhes o inominável"

e abre-me os braços escuros.

"Podias adormecer docemente".

Fala-me como a uma borboleta

que o vento estremece.


Mas amanhece e já não é o mesmo.

O rio da noite não me reconhece

por entre as moças

que atravessam a ponte.


  Original:


El río de la noche es otro

atravesado y solo en la ciudad que duerme.

Le gusta que le lleve naranjas y poemas

que no le tema y le tema

arrullándome con alemanes hermosos

que miraban el cielo para construir su casa

y hombres tristes que se perdieron tierra adentro.

“La vida les debe lo innombrable”

y me abre los brazos oscuros.

“Podrías dormirte dulcemente”.

Me habla como a una amapola

que tiembla en el viento.


Pero amanece y no es el mismo.

El río de la noche no me reconoce

entre todas las muchachas

que cruzan el puente.


      O poema apresenta uma atmosfera densa e melancólica, onde a noite simboliza memória, perda e identidade. A voz poética percorre um rio interior, revelando fragmentos de dor, infância e silêncio. Imagens sensoriais criam um espaço íntimo e inquietante, onde o tempo parece suspenso. O poema explora a solidão e a fragilidade humana, sugerindo uma busca por sentido num mundo sombrio e incerto, marcado por ausências persistentes e ecos do passado que não cessam nunca.


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