Maria do Rosário Pedreira - Bárbaros



Vinham de longe, arrastados pelos ventos, e escondiam

nas mãos um punhado de areia fina para não esquecerem

o cheiro dos desertos. Subiram à montanha e,

com um ramo quebrado, puseram-se a riscar o contorno

do lago e os caminhos tortuosos das primeiras margens.

A água fascinava-os, como aos cavalos que traziam

alados e sem crinas para chegarem mais cedo.


Nessa noite acamparam no vale. Assaram um veado. Beberam

ás mulheres que haveriam de ter. e adormeceram

mais longe do céu.


Sonharam com o fogo para não terem de cortar o trigo.


De manhã, a planície estava ainda mais plana.


      O poema reflete sobre a fragilidade das relações humanas e a incapacidade de comunicação autêntica. Os "bárbaros" simbolizam a indiferença emocional e a violência subtil presente no quotidiano. A linguagem contida intensifica o sentimento de distanciamento e desencanto. Há uma crítica à superficialidade dos afetos e à erosão da empatia. O tom melancólico revela uma consciência aguda da solidão contemporânea, onde o outro surge como ameaça ou ausência, mais do que como possibilidade de encontro verdadeiro.


Sem comentários:

Arquivo do blogue