Tirou
do bolso o canivete que a mãe lhe oferecera aos seis anos.
Acto
naturalmente impróprio, a respeito do qual seria desnecessário ajuizar.
Abriu-o,
passou ao de leve os dedos pela lâmina, e descascou a maçã.
Os
olhos nunca saíam do barco. Nem do mar.
A
prática fazia-o retirar a casca à fruta sem necessidade de olhar.
Era
tudo uma questão de hábito e de motricidade fina.
Neste excerto, a caracterização indireta revela uma
personagem experiente, disciplinada e concentrada. O canivete, oferecido pela
mãe, sugere valor afetivo e memória duradoura. O narrador comenta ironicamente
a impropriedade do gesto, mas normaliza-o pela naturalidade com que ocorre.
Enquanto descasca a maçã sem olhar, evidencia destreza manual, adquirida pela
prática. A atenção fixa no barco e no mar sublinha vigilância, expectativa e
possível tensão interior.

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