Isabel Nogueira

 


Tirou do bolso o canivete que a mãe lhe oferecera aos seis anos.

Acto naturalmente impróprio, a respeito do qual seria desnecessário ajuizar.

Abriu-o, passou ao de leve os dedos pela lâmina, e descascou a maçã.


Os olhos nunca saíam do barco. Nem do mar.

A prática fazia-o retirar a casca à fruta sem necessidade de olhar.

Era tudo uma questão de hábito e de motricidade fina.


      Neste excerto, a caracterização indireta revela uma personagem experiente, disciplinada e concentrada. O canivete, oferecido pela mãe, sugere valor afetivo e memória duradoura. O narrador comenta ironicamente a impropriedade do gesto, mas normaliza-o pela naturalidade com que ocorre. Enquanto descasca a maçã sem olhar, evidencia destreza manual, adquirida pela prática. A atenção fixa no barco e no mar sublinha vigilância, expectativa e possível tensão interior.


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