José Cereijo - Nunca

 


Nunca dormi nos teus braços,

nunca acordei de manhã a ver o armário, a janela, os livros,

ou escutei o ruído dos canos, os passos solitários na rua,

e pensei, incrédulo, que sendo tudo isso real

tu também devias ser.

Não soube a que sabiam os teus lábios, ou o teu riso,

não te vi a despir,

não soube nem saberei nunca como os teus olhos, no amor,

incendiavam a noite.

Essa falta, bem sei, é uma mutilação sem remédio,

um triste coto de um braço que levarei comigo até à morte.

É também, a seu modo, forma e prova de amor,

de lúcido humilhado amor,

de devastado e verdadeiro amor,

que eu ofereço à tua lembrança.


      Eu tive um caso, assim, com a Domingas Assunção Galamba Ascenção. Vivia no Laranjeiro e um dia passei em frente da sua casa. Parei e continuei. Tal como Dante nunca entre nós houve nada, mas em mim houve quase tudo. Hoje, a memória continua terna.


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