Antonio Martínez Sarrión - Saldo




Durou pouco, como era de prever,

menos ainda, como diria o clássico,

do que a verdura das eras. Ficam,

na memória em ferida

- essa puta enganosa conforme caem os anos -

a noite naquele farol

a ver as faluas entrar no porto,

algum trocadilho feliz,

aquela vez fria e chuvosa

em que a abriguei no meu agasalho,

o circo da neve do Paular

mantido à distância pela amendoeira em flor

que ardia puríssima nesse Março temporão.

Penso que pouco mais. Se preferirdes

outro balanço bem podia ser este:

a estrela da tarde desfeita em pedaços

e o vendaval de vidros na minha cara,

duas dúzias de orgasmos nem sempre partilhados

e uma plausível trégua para o fígado.


      O poema apresenta um balanço existencial marcado pela ironia e pelo desencanto. A voz poética utiliza léxico económico para avaliar perdas, ganhos e restos, despojando a vida de heroísmo. Memória, tempo e fracasso surgem como ativos depreciados, enquanto a lucidez amarga funciona como único lucro possível.


Sem comentários:

Arquivo do blogue