Durou
pouco, como era de prever,
menos
ainda, como diria o clássico,
do
que a verdura das eras. Ficam,
na
memória em ferida
-
essa puta enganosa conforme caem os anos -
a
noite naquele farol
a
ver as faluas entrar no porto,
algum
trocadilho feliz,
aquela
vez fria e chuvosa
em
que a abriguei no meu agasalho,
o
circo da neve do Paular
mantido
à distância pela amendoeira em flor
que
ardia puríssima nesse Março temporão.
Penso
que pouco mais. Se preferirdes
outro
balanço bem podia ser este:
a
estrela da tarde desfeita em pedaços
e o
vendaval de vidros na minha cara,
duas
dúzias de orgasmos nem sempre partilhados
e
uma plausível trégua para o fígado.
O poema apresenta um balanço existencial marcado pela ironia
e pelo desencanto. A voz poética utiliza léxico económico para avaliar perdas,
ganhos e restos, despojando a vida de heroísmo. Memória, tempo e fracasso
surgem como ativos depreciados, enquanto a lucidez amarga funciona como único
lucro possível.

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