Mãe,
eu quero ir-me embora – a vida não é nada
daquilo
que disseste quando os meus seios começaram
a
crescer. O amor foi tão parco, a solidão tão grande,
murcharam
tão depressa as rosas que me deram –
se é
que me deram flores, já não tenho a certeza, mas tu
deves
lembrar-te porque disseste que isso ia acontecer.
Mãe,
eu quero ir-me embora – os meus sonhos estão
cheios
de pedras e de terra; e, quando fecho os olhos,
só
vejo uns olhos parados no meu rosto e nada mais
que
a escuridão por cima. Ainda por cima, matei todos
os
sonhos que tiveste para mim – tenho a casa vazia,
deitei-me
com mais homens do que aqueles que amei
e o
que amei de verdade nunca acordou comigo.
Mãe,
eu quero ir-me embora – nenhum sorriso abre
caminho
no meu rosto e os beijos azedam na minha boca.
Tu
sabes que não gosto de deixar-te sozinha, mas desta vez
não
chames pelo meu nome, não me peças que fique –
as
lágrimas impedem-me de caminhar e eu tenho de ir-me
embora,
tu sabes, a tinta com que escrevo é o sangue
de
uma ferida que se foi encostando ao meu peito como
uma
cama se afeiçoa a um corpo que vai vendo crescer.
Mãe,
eu vou-me embora – esperei a vida inteira por quem
nunca
me amou e perdi tudo, até o medo de morrer. A esta
hora
as ruas estão desertas e as janelas convidam à viagem.
Para
ficar, bastava-me uma voz que me chamasse, mas
essa
voz, tu sabes, não é a tua – a última canção sobre
o
meu corpo já foi há muito tempo e desde então os dias
foram
sempre tão compridos, e o amor tão parco, e a solidão
tão
grande, e as rosas que disseste um dia que chegariam
virão
já amanhã, mas desta vez, tu sabes, não as verei murchar.
A tela é de Franz
Xaver Winterhalter - Portrait of Anna Bertier
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