Rui Pires Cabral - Eu nasci para olhar a beleza

 


A manhã com as suas proibições

na tua fala. A claridade estava a crescer

numa cama que já se tinha atravessado no escuro

como uma nave enfileirando para a guerra.

 

Eu não tinha ficado para conhecer a vista

das tuas janelas: imaginava um pátio riscado por ervas

mas não cheguei a levantar as persianas.

Talvez fosse um sítio ao qual não se pudesse regressar

porque quando falávamos os nossos olhos

não coincidiam com nenhuma palavra.

 

Teria gostado de te levar comigo outra vez

mas era difícil recuperar as razões

para o desejo. E no caso de nos ter acontecido

uma mudança, onde é que havíamos de procurar

os seus indícios? Estavas a dar de comer aos peixes

e eu só falava em livros.


      Há versos que nos matam, "Teria gostado de te levar comigo outra vez." Infelizmente, ele não levantou as persianas.

 

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