Gonçalo M. Tavares

 


Eu não quero mudar o mundo.

Não tenho tempo para isso.

Quem quer mudar o lugar do mundo actua

como quem muda o lugar de um móvel:

empurra primeiro para um lado,

foi força demais,

empurra então para o outro lado,

agora com força de menos,

depois mais um pequeno toque para lá

e um ainda mais pequeno toque para lá,

e agora sim:

o móvel está no lugar.

Depois abrimos o móvel e vemos que os copos que estavam

lá dentro se encontram todos partidos. Estão a ver?

 

Os copos todos partidos. Que aborrecimento.

Não nos lembrámos da fragilidade do vidro.


     É tão bela a poesia "quando ela nos envenena".


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