Ruy Espinheira Filho - Essa Mulher

 



A que nunca amei e me ama pensa em mim à noite

antes de dormir, e nos escombros do sono

vê o meu rosto suave, arrogante, de há muitos anos

e sente uma mão fria empunhar-lhe o coração.

 

É bela a que nunca amei e me ama, cada vez mais bela

com seus cabelos soltos ao sopro da memória,

com uma voz onde sonham luas que jamais iluminaram

um caminho que me levasse à que nunca amei e me ama.

 

É doce essa mulher que acorda e diz o meu nome

com unção. Seus olhos me fitam do longínquo

e doem em mim como dói nessa mulher que me ama

amar quem nunca a amou, disperso em seus enganos.

 

A que nunca amei e me ama acaricia a minha ausência

com pena de mim, que teria sido feliz, bem sabe,

se a tivesse amado; a ela, que me ama e nunca amei

e nunca hei de amar, como até hoje, amargamente.

 

      Amarga é o desamor, mas o poema é lindo, afinal de amor por ela que ama, foi e é amada.

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