Verônica de Aragão - Mobiliário

 


Como se saído de uma ampulheta

o pó cotidianamente se derrama

sobre os móveis.

 

E a mulher, com mão de Sancho,

recolhe com o pano humedecido

os vestígios do tempo

na serenidade da casa.

 

Não há nada de eterno sob a razão do tempo.

 

E o que é a realidade

se não a tentativa frequente

de recolher o pó caído da ampulheta

e depositado na mobília;

se não o polimento contínuo das coisas

para que a imagem delas fique intacta;

se não o movimento incessante da mão

até o esgotamento

— até que outra mão substitua a anterior

e sob sua força se construa uma nova realidade

tão irreal quanto a primeira. 

 

Como se fosse possível eternizar o amor

que também se esvai, tão quanto a areia.


      O verbo amar não se conjuga no pretérito, o que quer dizer "Eu amei?" Nada. O amor verdadeiro não se torna em pó.

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