Maria do Rosário Pedreira - Agora

 

 

Agora que morri de um amor incurável já não consigo

lembrar o que doeu. Olho o meu corpo estendido

sobre a ama e dou comigo a descrever a sua geografia

com o rigor invejável de um compêndio ― mas como

alguém que apenas conhecesse o mundo pelos mapas.

 

A morte separa-nos da dor e da sua memória ― se dobrares

neste instante o ângulo do corredor que conduz ao meu

quarto, decerto saberei o teu nome e os nomes das flores

que me trouxeres ― mas já terei esquecido o desencanto

de não as ter recebido noutro tempo, quando morrer de amor

não tinha ainda perdido o efémero estatuto de metáfora.


      Tão honesto, Sra. Rosário.

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