O amor
é uma graça que desliza
por cima das lagoas,
que corre pelos campos sem sentido,
que empurra o vento
e apruma o sol no solstício,
que derruba a bruma e fecha o horizonte
que nos faz ver de noite e de dia cegos
tacteando o ar sem provimento.
Que dá o movimento aos astros
e às sombras infinitas,
que abre o mar por onde os escravos passam
e ficam livres sem saber.
É a cascata que nos dilui
e lança na corrente sem perfídia
até ao oceano dos sentidos,
é o iceberg que se funde
e derrota os titanics
que passam solitários pelas albas,
é o assombro da manhã,
o cantar dos ralos nas searas,
o despertar das aves e rebanhos,
o charco onde crescem amarelo e roxo
as flores da primavera.
É só eu e tu
como na pureza dos salmos.

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