Clarice Lispector - Do pecado de pensar

 

 

Meu Deus, dá-me a coragem

de viver trezentos e sessenta e cinco dias e noites,

todos vazios da Tua presença.

Dá-me a coragem de considerar esse vazio

como uma plenitude.

Faz com que eu seja a Tua amante humilde,

entrelaçada a Ti em êxtase.

Faz com que eu possa falar

com este vazio tremendo

e receber como resposta

o amor materno que nutre e embala.

Faz com que eu tenha a coragem de Te amar,

sem odiar as Tuas ofensas à minha alma e ao meu corpo.

Faz com que a solidão não me destrua.

Faz com que minha solidão me sirva de companhia.

Faz com que eu tenha a coragem de me enfrentar.

Faz com que eu saiba ficar com o nada

e mesmo assim me sentir

como se estivesse plena de tudo.

Recebe nos Teus braços

o meu pecado de pensar.


      Lembro-me do dia em que a Clarice morreu. A notícia chegou-me pelo rádio - tal como a morte do Brel que ocorreria pouco tempo depois. O que dela disseram nessa manhã levou-me a procurá-la e a inclui-la nos meus amores. O poema, acima, é violento e revela a autora. O esvaziarmo-nos de Deus para enchermos de novo o barro.   

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