Meu Deus, dá-me a coragem
de viver trezentos e sessenta e cinco dias e noites,
todos vazios da Tua presença.
Dá-me a coragem de considerar esse vazio
como uma plenitude.
Faz com que eu seja a Tua amante humilde,
entrelaçada a Ti em êxtase.
Faz com que eu possa falar
com este vazio tremendo
e receber como resposta
o amor materno que nutre e embala.
Faz com que eu tenha a coragem de Te amar,
sem odiar as Tuas ofensas à minha alma e ao meu corpo.
Faz com que a solidão não me destrua.
Faz com que minha solidão me sirva de companhia.
Faz com que eu tenha a coragem de me enfrentar.
Faz com que eu saiba ficar com o nada
e mesmo assim me sentir
como se estivesse plena de tudo.
Recebe nos Teus braços
o meu pecado de pensar.
Lembro-me do dia em
que a Clarice morreu. A notícia chegou-me pelo rádio - tal como a morte do Brel
que ocorreria pouco tempo depois. O que dela disseram nessa manhã levou-me a procurá-la
e a inclui-la nos meus amores. O poema, acima, é violento e revela a autora. O esvaziarmo-nos de Deus para enchermos de novo o barro.

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