Albano Martins - Alegoria

 


De poetas

e filósofos tu sabes,

sabes também por ti. Por isso eu digo:

esta pedra é vermelha, esta pedra é sangue.

Toca-lhe: saberás

como em segredo florescem as acácias

ao redor dos muros, como fluem

as suas concêntricas artérias. Acaricia-as: tocas

a parte mais sensível de ti mesmo.

Dizias ontem

que o verão ardia

nesta pedra. Nela

queimavas as tuas mãos. Onde

as aqueces hoje? Eu digo:

o verão não morreu, esta pedra é o verão.

E tudo permanece.

E tudo é teu.

Tu és o sangue, o verão e a pedra.


      A pedra permanece. O santo de Assis tinha razão ao tratá-la por irmã e há penedos nos montes que parecem durar desde o princípio dos tempos.

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