Wislawa Szymborska - allegro ma non troppo

 


Tu és bela – digo à vida –

mais esplêndida não podias,

de rouxinóis e de rãs,

de formigas e sementes.

 

E tento ser-lhe agradável,

bajulá-la, olhá-la nos olhos.

Sou sempre a primeira a saudá-la,

de humilde expressão na fronte.

 

Vou-lhe saltando ao caminho,

da esquerda, da direita,

e fascinada me elevo,

e de enlevo me estatelo.

 

Que marinho este cavalo!,

que silvestre é esta amora! –

nunca em tal houvera crido

se não tivesse nascido.

 

– Não encontro – digo à vida –

nada a que possa igualar-te.

Ninguém fará outra pinha,

nem melhor, nem menos bem.

 

Louvo-te a generosidade, a criatividade,

a decisão e o rigor –

e mais ainda – e mais além –

a magia – a negra e a branca.

 

Só para não te ofender,

te irritar, descontrolar.

Eu saltito sorridente

há uns bons cem mil anos.

 

Arranho a vida pela bainha de uma folhita:

Terá parado? Ouviria?

Só uma vez, por um momento,

esqueceu-se de para onde ia?


      Virgílio Ferreira dizia "Sê alegre apenas depois de dares a volta à vida toda. E regressares então a uma flor, ao sol num muro, a um verme no chão. A profunda alegria não é a do começo mas a do fim."

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