Tony Hoagland - A pergunta

 


Certas perguntas não têm resposta.

Depois de colocadas ficam suspensas na mente

Como bocas abertas, cheias de alguma coisa que se perdeu.

O grande poeta português, Pessoa,

Disse que a ideia de felicidade

É o que nos conduz a uma permanente tristeza.

O corpo, ao imaginar a alma,

Vê-se como horrível diante de si mesmo.

Um homem ouve uma palavra, e o mundo

Torna-se num sítio que ele não compreende.

De modo que, coberto de vergonha

Pelo que não sabe, ele ascende até à sua vida

E recusa-se a descer.

 

Se o pudéssemos convencer de novo

Seria possível dizer-lhe, digamos,

Que nada pode ser explicado.

A forma das maçãs, por exemplo,

Pela sua paixão de viajar.

Ou a cor azul do céu

Por ser mais acessível aos olhos.

Até o cão, ao perseguir a cauda,

Tem, durante algum tempo, um centro.

E mesmo o pássaro, quando desaparece no seu buraco,

Sabe que o mundo prossegue sem ele.

E Pessoa, esse homem eminentemente sadio,

Esse artista, usava um chapéu azul de feltro

Até nos dias mais quentes de verão.

Apenas para o atirar aos estranhos na rua.

Gostava de os ver a apanharem-no,

E a tornarem-se imediatamente menos estranhos.

 

      Este poema traduzido no belíssimo blogue, Do trapézio, sem rede, resulta de um verso de Fernando Pessoa "We are what is missing from the world".

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