Correspondendo a um
apelo subterrâneo há vários dias que as dálias, as cinerárias, os gerânios e as
hortências se recusam a florirem e os jasmineiros e as violetas a exalarem o
seu aroma penetrante. De entre as rosas foram as vermelhas as primeiras a
aderir. Comités de flores que se formaram espontaneamente em todos os jardins
reivindicam o direito de florir em qualquer estação do ano, medidas eficazes
contra as arbitrariedades das floristas, a extinção pura e simples das estufas.
Uma nuvem de pó cobre a cidade. Em vão a polícia controla os portos e as
fronteiras. A exportação de bolbos e sementes foi suspensa entretanto. Na
Madeira o movimento foi desencadeado pelas estrelícias. Tulipas que viajavam de
avião e se destinavam a abastecer o mercado londrino murcharam colectivamente.
No Extremo Oriente, crisântemos negros invadem as ruas de cidades como Tóquio e
Pequim. Apanhadas desprevenidas as borboletas, abelhas, vespas e outros
insectos ensaiam agora perigosos voos sobre os transeuntes. Às dezasseis horas
numa conferência de imprensa realizada no Jardim de S. Lázaro, um grupo não
identificado de flores, mas entre as quais se podia reconhecer alguns
amores-perfeitos, proclamou o estado de felicidade permanente nos jardins.
Dizia Walter Scott "Construímos estátuas de neve e choramos
ao ver que derretem."
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