Guilherme Antunes - Destituído

 



o homem bebia.

 

o homem bebia para esquecê-la tanto quanto para lembrá-la.

o álcool como a tirar-lhe a lembrança para devolvê-la depois. ou o contrário disso.

o álcool para desinfetá-lo das fundas dores e lustrar o seu recente amor antigo.

 

o homem bebia para ficar mais longe do ontem.

aos goles, acentuava as inexatidões.

 

com as palavras de bêbado, falava para se ouvir.

enchendo a garrafa de flores a fazer-lhe um jardim para o descanso.

 

"quando melhorar, quero ser longe" - dizia.

 

era o homem como todos nós: tolo.

apenas destituído de sua lucidez.

Sem comentários:

Arquivo do blogue