Clara Pinto Correia - Os Meus Amigos


"Os meus amigos são todos assim: 
metade loucura, outra metade santidade. 
Escolho-os não pela pele, 
mas pela pupila, 
que tem que ter brilho questionador 
e tonalidade inquietante.
Escolho os meus amigos pela cara lavada
e pela alma exposta.
Não quero só o ombro ou o colo, 
quero também a sua maior alegria.
Amigo que não ri junto, 
não sabe sofrer junto. 
Meus amigos são todos assim: 
metade bobeira, metade seriedade.
Não quero risos previsíveis, 
nem choros piedosos.
Quero amigos sérios, daqueles 
que fazem da realidade a sua fonte 
de aprendizagem, 
mas lutam para que a fantasia 
não desapareça.
Não quero amigos adultos, nem chatos.
Quero-os metade infância 
e outra metade velhice.
Crianças, para que não esqueçam 
o valor do vento no rosto, 
e velhos, 
para que nunca tenham pressa.
Tenho amigos para saber quem eu sou, 
pois vendo-os loucos e santos, 
bobos e sérios, crianças e velhos, 
nunca me esquecerei 
de que a normalidade é uma ilusão."


      O meu pai, que Deus já tem, dizia "Se à hora da morte ainda tiveres um amigo, isso é muito bom."

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