Eu bem
queria não te dizer apenas
que,
na cidade, são sete horas precisas
e os
eléctricos conduzem gente
circunspecta
e cansada.
Eu
gostaria de dizer-te
que
coisas sublimes tinham acontecido
ou,
pelo menos, falar-te
de
pequenos mas raros sucessos.
Se
tudo fosse tão simples e sereno
como a
descuidada juventude dos pássaros,
a
todos os momentos eu poderia
enviar
palavras naturais e frescas
ao teu
coração aberto e vasto.
Difícil,
então, só seria o silêncio
e
dizendo teu nome estabeleceria
o
rompimento absoluto com as estreitas,
agrestes
e de sempre palavras sem futuro.
Poderia
depois dizer-te coisas brandas
na
universal linguagem
que
tornasse concordes pássaros e estrelas
com a
circulação ritmada do teu sangue.
Poderia
falar-te de coisas que não estas,
de
outra gente, não esta que ora segue
sonolenta
e resignada pelas ruas.
Esta
gente que não tem um sonho a embalar,
mas
filhos, muitos filhos,
esta
gente sem gritos nem revoltas,
mas
sorrisos humildes e postiços,
esta
pobre gente para quem são sete horas
irremediavelmente.
Ah!
Maria Virgínia, pudesse eu
dizer-te
francamente: «Não há perigo,
nada
importam as horas,
vamos
calmos e felizes pela cidade,
e o
tempo não marca porque tudo é perfeito.»
Sim,
eu queria dizer-te só palavras
harmónicas
e novas.
Sim,
eu queria que o tempo fosse
o
mesmo dos insectos e dos peixes,
dos
seres simples mas donos dos seus dias.
Exactamente
o propício tempo
para
te enviar as mais belas notícias
que tu
guardarias juntamente
com a
mais pura alegria.
Ah!
pudesse eu dizer-te
o que
dirão os homens
livres
para sempre destas amargas horas.
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