Eu dantes escrevia
poemas, como diria Karen Blixen da sua quinta em África ou Álvaro de Campos do
dia do seu aniversário. Os versos tornaram-se-me prosa baça, apontamentos,
meros diálogos ou evocações. Evito metáforas e ardis retóricos como quem evita
aviões ou eléctricos cheios de ninguém. Custa-me, por vezes, reconhecer a
cidade onde decidi viver.
Falar da morte — sempre
foi isso, creio, a minha poesia. Embora, tenho de acrescentar, nunca apenas
isso. Entre mim e o suicídio interpôs-se, por exemplo, a Paixão segundo São
Mateus de Bach. Posso dizê-lo, agora que já não me vou matar mas irei
certamente morrer. Eu que talvez nunca me tenha querido matar, mas que precisei
tanto da certeza de o poder fazer.
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