Conta-se que há muitos anos, entre
duas aldeias, Frades e Vila Nova, os moradores sentiam a necessidade de construir
uma ponte, que serviria de passagem não só para eles mas também para os seus
animais. Após terminar, regressaram satisfeitos às suas casas. No dia seguinte,
qual não foi o espanto, quando viram a ponte derrubada. Mas isto não foi motivo
para desistirem e logo a reconstruíram novamente. Desta vez, enquanto a
construíam, a ponte começou a estalar, a estalar, até que acabou por cair.
Então as pessoas disseram umas para as outras:
– Isto só pode ser artimanha do
diabo.
E de repente ouviram uma voz alta
dizer:
− Nunca conseguireis segurá-la em
pé.
Aflitos, correram a contar ao padre
da freguesia o que ali se tinha passado. O padre, surpreendido e num tom
animador, disse:
– Homens, voltai a reconstruí-la,
porque desta vez não vai cair.
Pela trigésima vez, a ponte iria ser
reconstruída, mas desta vez o padre acompanhou-os, levando um pão benzido debaixo
do capote. Quando foi colocada a última pedra, a ponte começou a torcer-se,
dando sinais de que iria cair. Então o padre lançou o pão a rebolar pela ponte
e disse:
– Em nome do Pai, do Filho e do
Espírito Santo.
O diabo, ao ouvir as palavras de Deus, fugiu e a ponte ficou sempre torta como se tivesse o ombro do diabo marcado quando estava a empurrá-la.
O diabo, ao ouvir as palavras de Deus, fugiu e a ponte ficou sempre torta como se tivesse o ombro do diabo marcado quando estava a empurrá-la.
Não só aconteceu o milagre do pão
como também desde esse dia outro milagre aconteceu: que é o de salvar os filhos
das mães que tanto os desejavam e que nunca conseguiram dar-lhes vida, pois
estes nasciam mortos após os seis ou sete meses de gravidez.
Uma mulher que já tivesse passado
pela situação descrita e estivesse novamente grávida, deveria ir até à ponte da
Misarela levando consigo dois acompanhantes e deveriam à meia-noite em ponto
estar em cima do arco da ponte. Os acompanhantes teriam de se colocar um em
cada entrada da ponte para impedirem que nenhum animal passasse, ainda que
fosse um rato, pois se assim fosse o milagre não se realizava.
A mulher grávida e os acompanhantes
teriam de esperar em cima da ponte até que alguém passasse para baptizar a
criança ainda dentro da barriga da mãe. Para o baptizado, levavam um jarro e
uma corda comprida e, quando aparecesse a primeira pessoa, pediam-lhe para ser
o padrinho ou madrinha da criança.
Então o padrinho ou a madrinha
teriam de cortar ao lado da ponte um ramo de oliveira. De seguida lançava o
jarro preso na corda abaixo da ponte e com a água que conseguisse colher
molhava o ramo e fazia uma cruz na barriga da mãe dizendo:
Eu te baptizo
em nome do Pai,
do Filho,
e do Espírito Santo.
Se fores rapaz,
teu nome será Gervás;
e se fores rapariga,
teu nome será Senhorinha.
Após o baptizado, regressavam a casa
e dali a nove meses o bebé nascia com saúde. E não só nascia o primeiro filho
como também outros que o casal desejasse sem necessidade de um tratamento
hospitalar.
(Esta lenda é um testemunho vivo de
um caso que se passou na minha família. A minha tia, Ana Barqueiro Pereira, não
conseguia ter filhos e, deixando-se levar pela crença na ponte da Misarela,
actualmente tem uma filha chamada Senhorinha e mais quatro filhos.)
in, Literatura Portuguesa de
Tradição Oral - Univ. Trás -os-Montes e Alto Douro, 2003



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